Discurso do secretário-geral no Memorial da Paz de Nagazaki por ocasião do 81º aniversário do bombardeio atômico, lido pela subsecretária-geral Izumi Nakamitsu.
Há oitenta e um anos, Nagasaki tornou-se um símbolo da capacidade da humanidade para a destruição.
Todos os anos, neste dia, recordamos as pessoas que perderam a vida.
Prestamos homenagem às gerações que reconstruíram esta cidade, transformando a tragédia em superação.
E honramos as pessoas sobreviventes – hibakusha, que transformaram um sofrimento inimaginável numa força moral imparável, lembrando ao mundo aquilo que nunca pode voltar a acontecer.
A sua mensagem de resiliência, reconciliação e esperança perdura e perdurará sempre.
Senti-me profundamente honrado por ter sido o primeiro secretário-geral das Nações Unidas a visitar Nagasaki para esta importante comemoração, em 2018.Acredito firmemente que o mundo precisa de recordar o que aconteceu aqui.
Especialmente nos dias de hoje:
- Vivemos um período de profundas tensões geopolíticas.
- A confiança está diminuindo.
- As normas que ajudaram a evitar catástrofes estão a sendo postas à prova.
- A tendência, observada durante décadas, de redução dos arsenais nucleares está a ser invertida.
- A norma global contra os testes nucleares encontra-se sob ameaça.
- As despesas militares mundiais atingiram 2,9 trilhões de dólares em 2025.
- E os sinais de ameaça nuclear voltam a intensificar-se.
Ano após ano, o risco de erros de cálculo, escalada e conflito continua a aumentar.
Isto é inaceitável.
A humanidade não deveria viver sob uma ameaça permanente.
A História recorda-nos que, mesmo em momentos de profunda rivalidade, a cooperação pode prevalecer e o progresso é possível.
Mas o progresso exige vontade política.
Exige liderança.
Exige o reconhecimento de que a nossa segurança é interdependente e de que as armas nucleares apenas alimentam a incerteza.
E exige que se atendam as lições forjadas aqui, em Nagasaki, sobre o verdadeiro horror da guerra nuclear.
O caminho para um futuro pacífico constrói-se através do reforço da confiança e da previsibilidade.
Através do investimento nos instrumentos da paz, como o diálogo, a diplomacia e a cooperação, e não nas armas da guerra.
E através da renovação do compromisso com o regime global de desarmamento, que durante décadas evitou uma catástrofe nuclear.
Juntos, podemos garantir que o futuro não seja definido pela rivalidade e pelo risco, mas pela cooperação e pela estabilidade.
Hoje, Nagasaki é simultaneamente um aviso e um guia:
- Apela-nos à ação, não apenas à recordação.
- E desafia-nos a reconstruir a confiança, reforçar a cooperação e escolher a diplomacia em vez da divisão.
Inspirados pelo extraordinário exemplo dado pelo povo de Nagasaki ao longo das décadas, devemos comprometermo-nos a construir um mundo em que a paz seja sustentada não pelo medo, mas por um propósito comum.
E, neste 81.º aniversário, homenageamos a coragem das hibakusha não apenas com palavras, mas também com ações.
As Nações Unidas serão sempre uma parceiro orgulhosa neste esforço essencial.
Através de medidas tomadas por todos os Estados, especialmente os que possuem armas nucleares, para reduzir os riscos e avançar rumo ao desarmamento total.